o repolho camponês e o amor de mãe

Essa receita vem de longe, não sei bem de onde. Chegou aqui com a minha avó francesa, mas não sei se vem de lá. Pode ser, tem batatas, repolho, um pouquinho de carne (francês não faz churrasco), um ou outro pedaço de embutido. Mas receitas são folhas ao vento rabiscadas entre vizinhas, são palavras que voam, mudam de casa, transformam-se e transformam as mesas e as memórias por onde passam.

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a carne grita!

A televisão mostrou um carneiro sendo abatido em um programa de culinária. O animal, criado por um pequeno produtor, teve uma vida digna e foi sacrificado para se transformar em alimento. Assim como tantos outros animais que se transformam em hambúrgueres nas redes de fast food. Esses, no entanto, provavelmente viveram confinados, foram submetidos a condições cruéis, ficaram doentes e tiveram sua carne invadida por antibióticos, ácidos e conservantes. Tudo em nome de uma produção volumosa e lucrativa.

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pão e chão

Assisti a uma reportagem sobre o acampamento de refugiados em Calais, na França. Pessoas em situação extrema, altamente vulneráveis, sem direitos, sem lugar. Pessoas que querem apenas sobreviver, que constróem cabanas de lona e madeira e transformam em um lar - ainda que temporário - as poucas coisas conseguem juntar. Existe esperança para qualquer um que busque dignidade. Isso demonstra apreço pela vida, energia para preservar a humanidade fundamental.

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carnaval com tropeiro

Foi um Carnaval bem vivido. E bem comido. Belo Horizonte é uma cidade que trata bem as almas e estômagos. Comida mineira é comida que abraça, que aquece, que te faz sentir querido. E não tem nada a ver com os restaurantes mineiros fora de Minas, com comida pesada, um monte de bistecas gordurosas e torresmos cenográficos de isopor. Comida mineira tem verdurinha, bananinha, leguminho, tudo feito com capricho. E tudo no diminutivo, para combinar com o jeitinho doce e gentil do mineiro: linguicinha, costelinha, ovinho, mexidinho, canjiquinha. E como mineiro come também o final das palavras, fica ovimmexidimqueijimcafezimdocim.

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com tempero e com paixão

Toda comida nasceu para ser amada e tem seu lugar no coração. Salada, sopinha, chuchu, abobrinha. É só temperar com amor e carinho para que os sabores apareçam. O tempero não pode atropelar a essência de cada alimento. Ao contrário, deve despertar o melhor dele. Como em um namoro, há de se apaixonar pela pessoa, e apenas adicionar o necessário para que aquilo que a torna única se sobressaia. E é por isso, entre outras coisas, que temperos prontos não funcionam: cada alimento pede uma dose diferente disso ou daquilo, uma pitada a mais, um raminho, uma folha. Ervas, sal, pimenta, alho, cebola, açúcar, limão, azeite, vinagre, mel, mostarda, vinho… Folhas e legumes também temperam. Fantasias, situações inusitadas, olhares inesperados, músicas, risadas, duas taças. E que delícia um pedacinho de linguiça ou ricota defumada. E as frutas? Laranja, limão, romã, abacaxi. Mão na coxa, hálito quente na nuca, uma palavra no ouvido… Tanta coisa vira tempero! Não tem fim. Ainda bem.

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água de beber

No ano passado, eu resolvi mudar a forma como tomo água. Pode parecer bobagem, mas a gente toma água o dia inteiro, todos os dias da vida. Então, trata-se de uma decisão importante saber de onde vem e como chega a água que bebemos. Eu costumava comprar galões de 20 litros para o suporte que gelava a água. Um trambolho que nem cabia na minha cozinha. Os galões, mesmo sendo retornáveis, também pediam uma logística chata: ligar, receber o rapaz, trocar, pagar, tem que ser em dinheiro, sempre chega na pior hora possível. Fiz isso durante anos, porque achava que a água mineral era a mais saudável. E pode até ser que seja, mas o impacto do transporte, da embalagem e a energia consumida no processo todo são uma questão a se considerar, e é necessário avaliar se o benefício realmente vale a pena.

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a canja de galinha e as dores-de-cabeça

Não costumo ter dor de cabeça, pelo menos não literalmente. “Dores-de-cabeça”, tenho muitas. Mas hoje, uma pequena e insistente dorzinha se instalou. Talvez por eu ter ficado muitas horas trabalhando na frente do monitor, pelos prazos corridos, pela faxineira que mal voltou e já me deu um monte de notícias chatas (acabou a cândida, o sabão em pó, a máquina de lavar parou de funcionar, a mancha do vestido não saiu) ou pela filha de férias macaqueando pela casa e produzindo um constante (e alto) ruído em segundo plano. O fato é que, hoje, eu estou meio azeda. E, portanto, sem muita vontade de aventuras culinárias.

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a salada de todo dia

Hoje vai ter salada. Aqui, todo dia tem salada, desde que eu me conheço por gente. Na minha casa sempre teve saladão em todas as refeições. Saladeira gigante na mesa, super bem temperada. A gente até brigava pelo talinho da alface, ou pelo último rabanete. Eu estranhava muito quando ia almoçar na casa de alguém e chegava na mesa aquele prato triste com quatro folhas secas de alface embaixo de algumas rodelas de tomate, com os temperos separados em garrafinhas ao lado do saleiro entupido. É claro que ninguém gostava de salada.

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a lentilha infinita

A lentilha que eu fiz há 4 dias já foi sopa para a família inteira, tomou o lugar do feijão ao lado do arroz integral em duas refeições e ainda não acabou. Vai de novo para a mesa (ainda bem que está gostosa). É, talvez eu tenha feito demais. Ou se trata de uma lentilha mágica infinita capaz de alimentar o mundo todo para sempre. Vou ficar atenta, talvez eu tenha que ligar para a ONU e contar as boas novas. Mas acho que, desta vez, a conta realmente foi equivocada.

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a dieta mitológica

Não me lembro de um início de janeiro que não trouxesse junto um início de dieta. A esbórnia da passagem de ano e a carga de força e coragem que nos inunda formam um quadro perfeito para as resoluções e promessas que vão, finalmente, nos transformar em pessoas perfeitas. Agora vai! 

Mas eu já vivi isso o suficiente para saber que não funciona, que não é o fato de ter um ano novo em folha que vai fazer você conseguir alguma coisa que sempre tentou e nunca conseguiu. É claro que podemos superar nossos limites em qualquer momento da vida, mas não é o mês de janeiro que vai dar conta disso. 

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o misto-quente na estrada

Acordei às 3:40h e precisamente às 4:22h estava com as malas no carro, 1 café e 2 biscoitos no estômago, pronta para enfrentar a saga da volta do litoral pós-feriados, sem saber quantas horas de direção me aguardavam. O Sol, obviamente, não tinha aparecido e nem ia aparecer, pois, para deixar tudo mais animado, havia três dias, caía uma insistente tempestade de proporções bíblicas. Pelo menos a noite de Ano Novo foi linda e eu pulei as sete ondinhas no mar, e não na enxurrada da calçada, colocando as bagagens no carro, como hoje, às 4 da manhã.

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